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Guia normativo

Como citar o uso de inteligência artificial na ABNT (NBR 6023) e escrever a declaração de uso

Resposta direta

Até hoje a ABNT não publicou um modelo próprio e consolidado para citar uma ferramenta de inteligência artificial generativa como fonte. A NBR 6023:2025 rege as referências e a NBR 10520:2023 rege as citações no texto, mas nenhuma das duas trata explicitamente do ChatGPT, do Claude ou do Gemini. Na prática, universidades e programas de pós-graduação usam uma adaptação da NBR 6023: informam o desenvolvedor, o nome e a versão da ferramenta, a indicação de que o conteúdo foi gerado por inteligência artificial, a data e o link quando existir. Isso é diferente da declaração formal de uso de IA, que muitas instituições exigem além da citação, por isso confira sempre a norma do seu próprio programa antes de submeter o trabalho.

  1. Entenda o que a norma cobre e o que ela ainda não cobre

    A NBR 6023:2025 é a norma vigente para referências no Brasil, e a NBR 10520:2023 é a norma vigente para citações no texto. Nenhuma versão chamada ABNT 2026 existe. O que falta é um modelo próprio e consolidado da ABNT para citar uma ferramenta de inteligência artificial generativa como fonte: até agora, essa lacuna fica por conta de adaptações feitas por cada universidade.

  2. Monte a referência com os elementos que a adaptação pede

    A adaptação mais usada por programas de pós-graduação reúne cinco informações: o desenvolvedor da ferramenta, o nome e a versão dela, uma indicação clara de que o conteúdo foi gerado por inteligência artificial, a data em que a resposta foi obtida e o link de acesso, quando a ferramenta tiver um. Como não é uma norma oficial da ABNT, o formato exato varia de instituição para instituição, então trate isso como um roteiro de conteúdo, não como uma fórmula fechada.

  3. Cite a ferramenta no corpo do texto

    No texto, a citação segue a mesma lógica de outras fontes sem autoria tradicional: você sinaliza que aquele trecho veio de uma consulta a uma ferramenta de inteligência artificial, remete o leitor à referência completa na lista final e deixa claro o que foi gerado pela ferramenta e o que é sua análise. O ponto que mais chama atenção de banca é justamente essa mistura: se a resposta da IA aparece colada no texto sem essa sinalização, parece que a ideia é sua.

  4. Separe citação de declaração formal de uso de IA

    Citar a ferramenta no texto e declarar o uso de IA são duas exigências diferentes, e é aqui que a maioria confunde. A citação aponta a fonte de um trecho específico. A declaração formal é um texto à parte, geralmente em apêndice ou em nota metodológica, que explica o uso de inteligência artificial na pesquisa como um todo, mesmo nas partes que não geraram uma citação direta.

  5. Escreva a declaração cobrindo ferramenta, finalidade e supervisão

    Uma declaração de uso de IA completa costuma responder três perguntas: qual ferramenta foi usada, com qual finalidade em cada etapa da pesquisa (levantamento de fontes, tradução, revisão de texto, análise de dados) e como um humano supervisionou e validou o que a ferramenta produziu. Registrar a supervisão importa porque é justamente o que separa um uso declarado e responsável de um uso escondido.

  6. Se você tem bolsa ou financiamento do CNPq, some outra exigência

    A Portaria CNPq n. 2.664/2026, sobre integridade na atividade científica, não proíbe o uso de inteligência artificial generativa. Ela regulamenta e exige a declaração desse uso, com ferramenta e finalidade, em todas as fases da pesquisa, para quem tem vínculo com bolsa ou financiamento do CNPq. O que ela veda é gerar dado ou resultado por IA sem supervisão humana e esconder o uso. Um TCC sem bolsa do CNPq não cai sob essa portaria: fica sob a norma da própria instituição.

  7. Se o destino é um periódico, confira ICMJE e COPE

    Boa parte das revistas científicas segue as diretrizes do ICMJE e da COPE, que não proíbem o uso de inteligência artificial na produção do artigo, mas proíbem colocar a ferramenta como autora e exigem declarar o uso. O MEC também publicou orientação para o ensino superior sobre uso de tecnologias digitais e de inteligência artificial, o que reforça que a exigência de transparência não é exclusiva do CNPq.

  8. Confirme a norma exata do seu programa antes de submeter

    Como a ABNT ainda não fechou um modelo próprio, cada universidade, faculdade ou programa de pós-graduação preenche essa lacuna do seu jeito, e as exigências mudam de um lugar para o outro. Antes de entregar o trabalho, procure o manual de normalização do seu programa ou pergunte diretamente à secretaria ou ao orientador qual adaptação da NBR 6023 e qual modelo de declaração eles pedem.

Por que uma referência pode vir com a forma certa e o conteúdo errado

Um modelo de linguagem não consulta um catálogo bibliográfico no momento em que gera uma referência: ele completa o padrão textual mais provável a partir do que aprendeu, então produz uma referência com a forma certa (autor, ano, título, periódico) mas com o conteúdo inventado. Por isso, toda referência sugerida por uma ferramenta de inteligência artificial pede conferência antes de entrar na lista final: verificar se o DOI, quando existe, resolve para o registro descrito, buscar o título exato em uma base indexada (Crossref, a base da sua área, SciELO, Google Acadêmico), conferir se autoria, ano, periódico e páginas batem com o registro real, e checar se o texto da fonte sustenta o que a citação afirma, não só se a fonte existe. Estudos acadêmicos sobre o tema mostram que ferramentas como Claude e ChatGPT ajudam a resumir pontos de concordância entre fontes e a varrer grande volume de texto, mas ainda erram em síntese, produzem citação incompleta e alucinam informação falsa, e por isso nenhum desses estudos recomenda fechar uma revisão de literatura usando IA sozinha, sem revisão humana.

Declaração de uso de IA não é burocracia isolada, é rastro de integridade

A Portaria CNPq 2.664/2026 e as diretrizes do ICMJE e da COPE partem do mesmo princípio: usar inteligência artificial na pesquisa não é o problema, esconder esse uso é. É por isso que a exigência recai sobre declarar a ferramenta e a finalidade em cada fase, e não sobre proibir a ferramenta. Isso também explica por que instituições diferentes pedem declarações com formatos diferentes: cada uma está tentando cobrir, com as próprias palavras, uma mesma lacuna que a ABNT ainda não fechou com uma norma dedicada.

A lacuna é da ABNT. A responsabilidade de declarar o uso e conferir a fonte é sua.

Perguntas frequentes

Existe uma norma da ABNT específica para citar inteligência artificial generativa?

Não. A NBR 6023:2025 rege as referências e a NBR 10520:2023 rege as citações no Brasil, mas nenhuma das duas trata explicitamente de ferramentas como ChatGPT, Claude ou Gemini. O que existe na prática são adaptações feitas por universidades e programas de pós-graduação, então vale sempre checar a versão que o seu programa adota.

Citar a ferramenta de IA no texto substitui a declaração de uso?

Não, são coisas diferentes. A citação aponta a origem de um trecho específico do texto. A declaração formal de uso de IA é um texto à parte, geralmente em apêndice ou nota metodológica, que explica o uso da ferramenta na pesquisa inteira, incluindo partes que não geraram uma citação direta.

Posso colocar o ChatGPT ou o Claude como autor de uma referência?

Não. As diretrizes do ICMJE e da COPE, seguidas por boa parte das revistas científicas, proíbem colocar uma ferramenta de inteligência artificial como autora, embora não proíbam usá-la na produção do trabalho. O que elas exigem é declarar o uso, não apagá-lo nem transformar a ferramenta em autora.

Preciso declarar o uso de IA mesmo sem bolsa do CNPq?

A Portaria CNPq 2.664/2026 vale para quem tem vínculo com bolsa ou financiamento do CNPq. Sem esse vínculo, o TCC ou a dissertação fica sob a norma da própria instituição, e boa parte dos programas já pede algum tipo de declaração por conta própria, então o caminho seguro é perguntar à secretaria ou ao orientador.

Como confiro se a referência que a IA me deu é real?

Confira se o DOI, quando existir, resolve para o registro descrito, busque o título exato em uma base indexada como Crossref, a base da sua área, SciELO ou Google Acadêmico, confirme se autoria, ano, periódico e páginas batem com o registro real e verifique se o texto da fonte sustenta o que a citação afirma. Uma referência pode ter a forma perfeita e o conteúdo inventado, porque é assim que o modelo completa o padrão de texto mais provável.

O que fazer se meu orientador não conhece essa exigência de declaração?

Leve a ele a distinção entre citar a ferramenta e declarar o uso, e mostre que a exigência já aparece em diretrizes de revistas científicas (ICMJE e COPE), na Portaria CNPq 2.664/2026 para quem tem bolsa e em orientação do próprio MEC para o ensino superior. Mesmo assim, a palavra final sobre o formato exato é sempre do manual de normalização do seu programa.

Citar certo e declarar direito resolve a parte formal, mas não resolve o risco por trás: usar IA para levantar bibliografia sem saber verificar o que ela devolve. No workshop Pesquisa Bibliográfica com Claude, por R$ 97, a gente trabalha exatamente essa parte: como usar o Claude na pesquisa bibliográfica sem cair na referência inventada e sem perder o controle do que é seu e do que é da ferramenta.

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