Pular para o conteúdo
Workshop Pesquisa Bibliográfica com Claude

Início · Guia de verificação

Guia de verificação

Como verificar se uma referência dada por IA é real antes de citar

Resposta direta

Uma IA generativa pode inventar referência porque ela não consulta nenhum catálogo bibliográfico no momento de responder, ela completa o padrão de texto mais provável, o que produz uma referência com a forma certa e o conteúdo errado. Para verificar antes de citar, faça quatro perguntas em sequência: o identificador (DOI) resolve para o registro descrito, o título aparece em uma base indexada, os dados de autoria, ano, periódico e páginas batem com o registro real, e o texto da fonte realmente sustenta o que a citação afirma. As três primeiras perguntas pegam referência fabricada, a quarta pega também referência real citada fora de contexto.

  1. Entenda por que a IA inventa referência

    Quando você pede uma referência para uma IA generativa, ela não abre nenhum catálogo de biblioteca nem consulta uma base de artigos publicados antes de responder. Ela funciona prevendo qual sequência de palavras é mais provável de vir a seguir, com base no padrão de milhões de referências que apareceram no material usado para treiná-la. Por isso o resultado costuma sair com a forma certa de uma referência acadêmica (autor, ano, título, periódico, DOI), porque esse formato é bastante regular e fácil de imitar. O problema mora no conteúdo dentro desse formato: o título pode não existir, o DOI pode não resolver para nada, ou pior, pode resolver para um artigo completamente diferente do que foi descrito. Isso acontece mesmo quando a resposta parece impecável, porque a ferramenta está completando um padrão de texto, não consultando um fato.

  2. Pergunta 1: o identificador (DOI) resolve para o que foi descrito?

    Se a referência trouxer um DOI, o primeiro teste é colar esse identificador no navegador, no formato https://doi.org/10.xxxx/xxxxx. Um DOI real leva direto ao registro do editor, com título, autores e periódico batendo com o que foi citado. Se o link der erro, cair numa página de registro não encontrado ou abrir um artigo totalmente diferente do que a IA descreveu, você já tem prova de que a referência não se sustenta. Isso costuma indicar referência fabricada, não referência real mal formatada.

  3. Pergunta 2: o registro aparece em uma base indexada?

    Com ou sem DOI, busque o título exato, entre aspas, em uma base indexada confiável: Crossref, a base de referência da sua área, o SciELO para produção brasileira e latino-americana, ou o Google Acadêmico como triagem inicial. Um artigo real, mesmo pouco citado, costuma deixar rastro em pelo menos uma dessas bases. Se a busca pelo título exato não retornar nada, ou retornar só páginas que citam a própria IA como origem da informação, trate a referência como não confirmada até prova em contrário.

  4. Pergunta 3: os dados batem com o registro real?

    Achar um artigo parecido não é a mesma coisa que confirmar a referência. Compare item por item: os nomes dos autores estão na ordem e na grafia certas, o ano de publicação é o mesmo, o periódico é exatamente aquele e não um parecido, e o volume, o número e as páginas batem com o registro indexado. É comum a IA acertar autor e periódico, mas errar o ano, ou inventar uma página que não existe naquele fascículo. Cada um desses detalhes se confere contra a base, nunca contra a memória de quem gerou a referência.

  5. Pergunta 4: o texto da fonte sustenta a afirmação que você fez?

    Essa é a pergunta que mais gente pula, e a mais importante das quatro. Confirmar que um artigo existe não confirma que ele diz o que a sua citação afirma que ele diz. Abra o texto, ou pelo menos o resumo e a seção relevante, e verifique se o argumento, o dado ou a conclusão citados aparecem ali, com o sentido que você está atribuindo a eles. Uma referência real, indexada, com todos os dados batendo, ainda falha se for usada para sustentar algo que o autor original não disse, ou disse de um jeito diferente.

  6. Exemplo: uma referência fabricada (fictícia, feita só para treinar a checagem)

    Este exemplo é inventado de propósito para ilustrar o método, não corresponde a nenhuma referência real. Imagine que uma IA generativa devolveu esta referência para sustentar uma afirmação sobre evasão em cursos de pós-graduação a distância: SILVEIRA, M. A. Evasão em programas de pós-graduação a distância no Brasil: um estudo de dez anos. Revista Brasileira de Estudos Avançados em Educação Superior, v. 12, n. 3, p. 45-67, 2021. DOI: 10.5555/rbeaes.2021.120345. Aplicando as quatro perguntas: o prefixo 10.5555 é reservado para testes e nunca aparece em um DOI real registrado, então o identificador já falha na primeira pergunta. Buscando o título exato entre aspas nas bases indexadas, ele não aparece em nenhuma delas, o que falha na segunda pergunta. O nome do periódico também não corresponde a nenhum título indexado localizável, o que reforça a suspeita. Neste caso fabricado, a primeira e a segunda pergunta já bastam para descartar a referência antes que ela chegue ao texto.

  7. Referência real citada torto também falha

    Vale reforçar um ponto que escapa até de quem já aprendeu a desconfiar de referência fabricada: um artigo existir, estar indexado e ter todos os dados batendo não garante citação correta. É perfeitamente possível pegar um artigo real, publicado, com DOI funcional, e usar ele para sustentar uma afirmação que o texto original não sustenta, por pressa, por leitura rápida demais, ou porque um resumo gerado por IA saiu errado e ninguém conferiu contra o original. Por isso a quarta pergunta pesa tanto quanto as outras três somadas: é a única que não se resolve batendo dado contra base, ela exige leitura de verdade.

O que a Portaria CNPq 2.664/2026 exige, e o que ela não proíbe

A Portaria CNPq n. 2.664/2026, sobre a Política de Integridade na Atividade Científica, não proíbe o uso de inteligência artificial generativa na pesquisa. O que ela exige, para quem tem vínculo com bolsa ou financiamento do CNPq, é declaração do uso: informar a ferramenta usada e a finalidade, em todas as fases do trabalho em que a IA entrou. O que ela veda é usar IA para gerar dado ou resultado sem supervisão humana, e esconder que a ferramenta foi usada. O MEC também publicou orientação para o ensino superior sobre uso de tecnologias digitais e de IA, na mesma linha de transparência. Se o seu TCC não tem bolsa do CNPq, essa portaria especificamente não se aplica a você, mas vale conferir a norma da sua própria instituição, porque muitos programas de pós-graduação já adotaram exigência parecida por conta própria. Diretrizes editoriais internacionais como as do ICMJE e do COPE, seguidas por boa parte das revistas científicas, seguem a mesma lógica: não proíbem uso de IA, proíbem IA como autora, e exigem declaração do uso.

Como citar a IA quando ela foi ferramenta, e não fonte da referência

Aqui vale uma honestidade que poucos textos fazem: a ABNT ainda não publicou um modelo próprio e consolidado para citar uma ferramenta de IA generativa, como ChatGPT, Claude ou Gemini, como fonte. Não existe uma ABNT 2026 com essa regra pronta. O que existe hoje são a NBR 6023:2025, norma vigente de referências, e a NBR 10520:2023, norma vigente de citações, que dão a estrutura geral para citar qualquer fonte, mas nenhuma das duas trata especificamente de ferramenta de IA generativa. O que universidades e programas de pós-graduação vêm fazendo, na prática, são adaptações dessa estrutura: informar o desenvolvedor da ferramenta, o nome e a versão usados, a indicação de que aquele conteúdo foi gerado por IA, a data em que a resposta foi obtida e, quando existir, o link de acesso. Muitas instituições também exigem, além dessa citação no texto, uma declaração formal de uso de IA à parte, normalmente em apêndice ou em nota metodológica, o que é uma exigência distinta e que se soma à citação, não substitui ela. Antes de fechar o texto, confira com o seu orientador ou com o manual da sua própria instituição qual modelo eles adotam, porque a fragmentação aqui é real, não um detalhe.

Referência com a forma certa nem sempre é referência verdadeira.

Perguntas frequentes

A IA só inventa referência que não existe, ou também pode citar errado uma que existe de verdade?

Os dois problemas acontecem, e o segundo costuma ser mais difícil de perceber. Uma referência pode existir de verdade, estar indexada e ter DOI funcional, e ainda assim ser citada para sustentar algo que o texto original não diz. É por isso que a quarta pergunta do método, se o texto sustenta a afirmação, precisa ser feita mesmo quando as três primeiras já confirmaram que a referência é real.

Zotero ou Mendeley verificam automaticamente se uma referência é real?

Não. Os dois são gerenciadores de referência: guardam, organizam e formatam o que você importa ou digita, e ambos exportam e importam nos formatos RIS e BibTeX, sendo que o Mendeley também exporta em XML, o que facilita migrar a biblioteca de um para o outro. Mas nenhum dos dois confere sozinho se uma referência dada por IA corresponde a um artigo real, essa checagem continua manual, feita por você contra uma base indexada. Existem plugins de terceiros que tentam somar IA a esses gerenciadores, mas em geral exigem configuração própria e chave de API, não é um recurso nativo pronto de fábrica.

Posso usar Claude ou ChatGPT como apoio na revisão de literatura?

Estudos acadêmicos publicados sobre o tema mostram que os dois ajudam a resumir rapidamente pontos de concordância entre fontes e a varrer um volume grande de texto num tempo que seria inviável manualmente. Os mesmos estudos mostram, porém, que ambos ainda têm dificuldade real de síntese, produzem citação incompleta e alucinam informação falsa, e nenhum deles recomenda usar qualquer uma das duas ferramentas sozinha, sem revisão humana, para fechar uma revisão de literatura. Na prática, dá para usar como apoio de varredura e resumo, desde que toda referência que sair dali passe pelas quatro perguntas antes de entrar no texto final.

Existe uma regra pronta da ABNT para citar o ChatGPT ou o Claude como fonte?

Não, e vale ser direto sobre isso: a ABNT ainda não publicou um modelo próprio e consolidado para esse caso específico. A NBR 6023:2025, de referências, e a NBR 10520:2023, de citações, seguem sendo as normas vigentes, mas nenhuma das duas trata explicitamente de ferramenta de IA generativa como fonte. O que existe são adaptações feitas por universidades e programas de pós-graduação, então o caminho mais seguro é confirmar com a sua própria instituição qual adaptação ela adota, em vez de supor que existe um consenso nacional pronto.

O que fazer se eu não conseguir confirmar uma referência de jeito nenhum?

Trate como não confirmada e não use, mesmo que o conteúdo pareça exatamente o que faltava para o seu argumento. Uma referência que não resolve, não aparece em base nenhuma e não tem autoria localizável tem grande chance de ser fabricada, e citar ela é um risco direto para a integridade do seu trabalho, além de um risco real de questionamento em banca ou em avaliação por pares.

Se depois de aplicar essas quatro perguntas você sentiu que falta tempo e método para revisar a literatura inteira desse jeito, é exatamente disso que trata o Workshop Pesquisa Bibliográfica com Claude, por R$ 97. A proposta não é terceirizar a checagem para a IA, é aprender um fluxo de trabalho em que você usa a ferramenta para ganhar tempo sem perder o controle sobre o que entra na sua pesquisa.

Conhecer o workshop, R$ 97